Tecnologia é para aumentar o mundo real, não se tornar substituta dele

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Nomofobia é o termo usado para designar quem se viciou em celulares. Fomo, do inglês fear of missing out, é o medo de ficar por fora das últimas novidades.

Já mostramos nesta matéria que o vício em internet já é comparável ao em drogas, como álcool ou cocaína. Não só pelos fatores comportamentais e sociais, mas também de como o hábito, em exagero, afeta a química do cérebro e também do corpo, tal qual agem as drogas.

Uma recente pesquisa, também tema deste artigo, mostrou que a OMS já tem o vício em videogames como um distúrbio psiquiátrico.

Entre as consequências de tais dependências estão a ansiedade, o nervosismo, o stress, a depressão, a falta de atenção e, claro, um distanciamento do mundo físico, dos amigos e familiares cujos contatos vão além da lista de amigos do Facebook.

E qualquer um pode cair neste vício, algo tão presente que já existem traficantes de drogas virtuais: designers que desenvolvem tecnologias capazes de persuadir indivíduos a não largar delas.

Dentre as muitas táticas utilizadas para viciar os usuários, uma das mais famosas é conhecida como regra dos três cliques, segundo a qual as pessoas devem conseguir acessar o que for em computadores, celulares e na internet com apenas três toques no mouse ou na tela do smartphone. Outra técnica viciante são as timelines de rolamento infinito das redes sociais, porque nossas mentes acreditam que sempre haverá algo muito importante no final da lista.

Assim como fazem os traficantes de drogas com seus clientes, os traficantes virtuais desenvolvem estratégias que iludem os usuários de internet.

Mas, assim como as drogas, também o vício em tecnologia tem algumas saídas. No livro ‘Irresistível, Por que você é viciado em tecnologia e como lidar com ela’ (Companhia das Letras), Adam Alter, professor de marketing e psicologia da Stern Business School da Universidade de Nova York, explora um novo campo de estudo, o vício comportamental, e examina o comportamento dependente ao longo da história.

Lançado esta semana no Brasil e já publicado em 24 outros países, a obra examina nossa dependência digital e assume a tarefa inglória de conversar com o público sobre os perigosos excessos da tecnologia.

O livro abre com um segredo mal guardado do Vale do Silício: seus grandes inventores e empresários mantêm os próprios filhos longe de gadgets, matriculando suas crianças em escolas caras que aplicam o método Waldorf, conhecido por banir tecnologia até os doze anos (lembra a rapper Karol Konka afirmando que “filho de maconheiro não fuma”? Pois é a mesma coisa: Steve Jobs admitiu certa vez que seus filhos não tinham acesso a iPads).

Alter cita um estudo que revela alguma forma de comportamento dependente em metade da população dos países desenvolvidos. Cada vez mais, a dependência não é de drogas e sim expressada em comportamento compulsivo. Ele usa o exemplo dos veteranos do Vietnã – cem mil voltaram da guerra tendo experimentado heroína pura. E 95% – um índice altíssimo, no caso de opioides – abandonaram a droga quando foram positivamente reinseridos na sociedade. “Nem toda dependência química é herdada ou fruto de uma personalidade propensa,” afirma Alter, sobre o vício comportamental.

Uma recomendação feita pelo autor se refere à arquitetura do comportamento. “Como um arquiteto projeta uma casa, nós podemos projetar a distribuição da tecnologia no nosso ambiente,” sugere. “Podemos deixar os celulares mudos numa gaveta durante as refeições”.

Alter acha que, enquanto médicos não começarem a perguntar numa consulta “Quanto tempo você passa diante da tela?”, o vício tecnológico, “um problema de saúde pública,” deve ser encarado dentro de casa. “Os pais é que têm o poder,” diz ele. “A criança acompanha o olhar dos pais. Quer saber porque a atenção se afastou dela e não sai da tela do celular. E vai desejar a tela”.

A tecnologia pode ser uma janela maravilhosa, diz o autor. Mas ela deve servir para aumentar o mundo real, não se tornar o substituto.

Afinal, alerta Alter, o iPhone só foi lançado há onze anos, o iPad há sete, e não temos uma geração de adultos e profissionais para saber o significa crescer, como ele argumenta, com um apêndice do corpo na forma de um gadget.

 

Fonte: Estadão