O mundo das drogas na Sétima Arte

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A relação homem/droga é tão abrangente que vem sendo tratada não apenas por cientistas, mas também pelas artes. Nesse sentido, o cinema ocupa posição importante como forma de expressão social, visto que a sociedade atual tem nas imagens um poderoso veículo de comunicação.

O cinema é uma das mais importantes expressões da arte – a sétima, na numeração estabelecida por Ricciotto Canudo no “Manifesto das Sete Artes”, em 1912. Ele, o cinema, visa transformar em uma determinada linguagem a realidade em que estamos inseridos e, ao mesmo tempo, realiza sobre ela o movimento de crítica, promovendo a inversão do olhar para o novo.

O uso de drogas tem sido retratado em filmes sob diferentes perspectivas e com enfoque em diversas esferas sociais, como no trabalho, na ciência e no meio artístico. E, claro, tem enfocado sentimentos e interações existentes entre o usuário de drogas e sua família.

Abaixo, apresentamos uma seleção de filmes nacionais e estrangeiros que contam, de pontos de vista diferentes, a realidade do indivíduo que se vê inserido no mundo do álcool e das drogas. Confira:

Vamos começar pelo cinema brasileiro, que adotou rapidamente uma linguagem ácida, pragmática e realista para confrontar o problema das drogas. Desde Bicho de sete cabeças, nossa filmografia se aventura pelo elo mais fraco desse mercado e destila traficantes, usuários, policiais e agentes do estado que, bem ou mal intencionados, acabam por contribuir com a espiral da droga. Mas, se dentro de suas tramas, esses personagens mais atrapalham do que ajudam a elucidar o problema, fora da tela, eles acabam tirando a sociedade da letargia.

BICHO DE SETE CABEÇAS (Laís Bodanzky, 2001)

Rodrigo Santoro vive Neto, personagem inspirado em Austregésilo Carrano Bueno que, aos 17 anos, foi internado em um hospital psiquiátrico público, depois que seu pai encontrou um cigarro de maconha em suas coisas. Bueno contou essa história no livro Canto dos malditos, base para o roteiro do filme que, muito mais do que a dependência química em si, aborda as consequências do despreparo e preconceito da sociedade com o tema. Neto não é um viciado, mas um rapaz de classe média baixa que faz experiências preliminares com drogas. O pai, por ignorância acerca do tema, encara o filho como um bandido drogado e recorre ao manicômio, uma instituição que mais se assemelha a uma cadeia do que a uma clínica de recuperação de usuários de drogas. O resultado da internação são torturas, choques elétricos e dopagem por remédios. No final, o protagonista do filme não é Neto, mas a própria estrutura de internações, incapaz de recuperar o dependente.

CIDADE DE DEUS (Fernando Meirelles, 2002)

O filme que redefiniu o rumo do cinema brasileiro tem o mercado da droga como protagonista. Claro que todo mundo lembra de Zé Pequeno, Buscapé, Bené, Mané Galinha, Cenoura. Mas o que une todos esses personagens, além do fato de eles morarem na Cidade de Deus, é o fato de eles dividirem seu cotidiano – em maior ou menor grau – com o tráfico de drogas. Zé Pequeno é o traficante facínora cuja ambição por poder só não é maior do que o gosto sádico pela violência; Mané Galinha, um cobrador de ônibus que se vê arrancado da vida normal pela violência; Buscapé, um fotógrafo que tem sua carreira alavancada pela proximidade com a violência extrema. Todos eles trabalham no mercado da droga, mesmo que nem todos o sustentem. No final das contas, o filme encara o tráfico como uma atividade capitalista como qualquer outra em que o predatorismo inerente à atividade da acumulação ganha contornos físicos graças ao potencial bélico de seus agentes.

TROPA DE ELITE (José Padilha, 2007)

Capitão Nascimento, o comandante do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) vivido por Wagner Moura, faz uma análise pragmática da sociedade e vive de acordo com ela: os maiores responsáveis pela economia da droga são os usuários de classe média. Estes mesmos usuários vivem alheios à guerra do tráfico e, em sua ignorância, encaram a polícia como o mal e idealizam o traficante de drogas. Chamam isso de consciência social. Embora critique a tal consciência do maconheiro que faz trabalho social na favela, o capitão tem uma visão maniqueísta do mundo e vive pela máxima de que os fins justificam os meios. Se é para vencer a guerra contra o poder paralelo do tráfico nos morros do Rio de Janeiro, vale invadir barraco com pé na porta, torturar morador e até matar inocentes. Pelo menos, ele é coerente com a ideia de que há uma guerra em curso na cidade – e que só a classe média não percebeu.

MEU NOME NÃO É JOHNNY (Mauro Lima, 2008)

“Minha meta é torrar um milhão de dólares”. A frase acabou virando bordão do João Estrella vivido por Selton Mello e sintetiza bem o personagem, inspirado num produtor musical que acabou preso por envolvimento no tráfico de cocaína, em 1995. Durante quase uma década, João – cujo nome não é Johnny, apesar dos autos policiais – fez a ponte entre o morro e classe média e tornou-se um dos maiores abastecedores de cocaína da Cidade Maravilhosa. O problema é que, ao contrário do mega empresariado do tráfico, Estrella não tinha uma consciência capitalista. Ele não acumulava. Ele não sabia jogar. Ele queria mesmo era gastar tudo e aproveitar a vida do seu jeito torpe. O problema é que com isso, ele não soube se cercar. Não arrumou advogado, não fez faculdade, não gerou riqueza. Embora tenha sido um dos mais prósperos empresários da droga – com clientes à altura do título -, acabou em uma cela comum de cadeia, sem dinheiro, sem namorada, sem esperança.

BOA SORTE (Carolina Jabor, 2014)

Primeiro longa de ficção da cineasta Carolina Jabor, o filme narra uma história de amor entre João, um jovem inexperiente e tímido, e Judite, uma mulher de 30 anos que já experimentou de tudo e não tem muito tempo de vida. Os dois se conhecem numa clinica de reabilitação e vivem um romance transformador. A produção é uma adaptação do conto “Frontal com Fanta”, de Jorge Furtado, que assina o roteiro junto com o filho Pedro Furtado. No elenco, Deborah Secco, João Pedro Zappa, Fernanda Montenegro, Cassia Kis Magro, Enrique Diaz, Mariana Lima, Felipe Camargo, Giselle Froes, entre outros. Ao contrário de Bicho de Sete Cabeças, Boa Sorte encara a temática de despreparo paterno e da dependência química entre jovens de modo leve, porém nunca despreocupado. As verdades estão lá, porém evitam-se os discursos enfadonhos e didáticos. A obra, ao se apresentar neste formato, torna o debate ainda mais relevante e acessível.

 

NO CINEMA MUNDIAL:

28 DIAS

Gwen Cummings (Sandra Bullock) é uma escritora que não enxerga limites quando o assunto é bebida alcoólica. A princípio, tudo parece festa e diversão, mas quando o consumo está fazendo com que ela passe dos limites, algo deve ser feito. Esse drama discorre sobre o período em que Gwen se vê internada, durante 28 dias, em uma clínica de reabilitação. Lá, ela precisa lidar com os próprios sentimentos e conviver com outras pessoas que vivem a mesma situação que ela. Esse contato muda sua perspectiva sobre as coisas.

 

O DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

Baseado na história real do escritor e cantor Jim Carroll, interpretado por Leonardo DiCaprio, O Diário de um Adolescente retrata como o jovem Jim deixou de ser o astro de um time de basquete e se inseriu no submundo das drogas e da prostituição. Todos os dramas e medos são colocados de uma forma tocante e impactante nesse longa-metragem que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator para DiCaprio.

 

RÉQUIEM PARA UM SONHO

O drama de Réquiem retrata como os sonhos de pessoas que se viciam em drogas podem desmoronar do dia para a noite. Harry Goldfarb (Jared Leto), Marion Silver (Jennifer Connely) e Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) tinham grandes aspirações para o futuro. Harry e Marion desejavam abrir o próprio negócio e viverem felizes e Sara queria emagrecer para ficar bela em seu vestido favorito para aparecer na televisão. No entanto, as drogas atrapalharam os sonhos dessas três personagens de uma maneira surpreendente.

 

O LOBO DE WALL STREET

Neste filme norte-americano dirigido por Martin Scorcese, Leonardo de Caprio (ele de novo) interpreta Jordan Belfort, um corretor de ações de Nova York. Deslumbrados com o sucesso financeiro e aparentemente desfrutando do prazer de enganar os outros, o grupo acaba se envolvendo com drogas e logo adota um estilo de vida irreverente, irresponsável e de pouca consideração com os outros, regado a muito álcool, sedativos, estimulantes, cocaína e prostitutas. Rapidamente, o personagem principal se torna dependente de drogas e adota um padrão de consumo bastante característico: toma bebidas alcoólicas e sedativos fortes para dormir e para “ficar chapado” e, a seguir, contrabalança com anfetaminas e altas doses de cocaína para conseguir acordar e se manter “ligado” e ativo durante o dia.

 

EU, CHRISTIANE F., 13 ANOS, DROGADA, PROSTITUÍDA

Christiane F. (Natja Brunckhorst) é uma menina de somente 13 anos de idade, que começa a frequentar uma boate nova e moderna na Alemanha. A partir das influências que ela tem, a menina passa a ver sua vida se deteriorando aos poucos, com o uso excessivo de heroína, entre outras drogas, além de cair na prostituição. Um drama comovente, que mostra todas as nuances desse submundo.

Baseado em fatos reais, o livro, lançado há 40 anos, venderia milhões de cópias instantaneamente, chocando e fascinando não só a austera sociedade alemã do final dos anos 1970, como a todo o mundo, contando quatro anos da vida de Christiane – dos 12 aos 15 anos de idade – atravessados entre o vício de heroína e outras drogas e a prostituição infantil, e revelando a dura realidade das ruas da Berlim ocidental da época, onde ela vivia. Três anos depois do lançamento do livro, a história seria adaptada para o cinema, estrelado por David Bowie, também alcançando vasto sucesso e transformando a personagem de Christiane em um ícone do aspecto pop que as drogas podem trazer, assim como do lado sombrio – e real – que sua história revelava sobre a juventude do mundo todo.

Quando o livro foi lançado, Christiane tinha somente 16 anos – quando o filme chegou às telas, ela tinha 19. Ninguém acreditava, então, que aquela jovem perdida sobreviveria muitos anos – e até hoje não acreditam que ela ainda está viva.

Os 40 anos de seu histórico relato (lançado em 1978, com mais de 5 milhões de cópias vendidas desde então) são, no entanto, também símbolo de seus 56 anos de vida, completados em maio próximo. Christiane Vera Felscherinow segue viva, ainda lutando contra as drogas, vivendo dos direitos de sua história, com uma das mais famosas histórias de vício em todo o mundo.

 

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Fontes: Hypeness & Viver sem drogas