Pessoas e comunidades terapêuticas

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Há poucos dias fui assaltada enquanto caminhava da escolinha do meu filho de volta para casa. Um jovem adulto, moreno, alto e meio gordinho, de faca e saco plástico na mão, “só” queria o celular. O que ele pretendia com aquele saco plástico não gosto nem de pensar, pareceu terrível! Num reflexo rápido e abençoado, joguei o celular bem longe, obrigando o assaltante a afastar-se de mim para pegar a droga do celular caído no chão, melhor dizendo para pegar a droga. Ele “só” queria trocar o aparelho por um pouco de droga. A minha vida no caminho dele, um mal necessário. A vida dele nas nossas, um mal que insiste em aparecer sem ser convidado.

Antes disso acontecer, eu pretendia inaugurar esta seção com um histórico das comunidades terapêuticas (CTs) no Brasil e no mundo, e depois falar sobre os desafios que elas enfrentam com foco na gestão de pessoas. Eu ainda pretendo fazer isso. Por que muito se fala e ouve falar sobre o capital humano. E todo esse falatório não é sem razão. Existe muito, muito mesmo para ser melhorado em matéria de comportamento nos nossos ambientes laborais. Mas, quando a realidade bate assim na sua porta, é difícil manter a fria distância de um observador isento.

Não. Não sou observadora isenta. Os danos causados pelas drogas me afetaram desde o começo da minha vida, e de muitas formas, mas isso com o tempo vou explicando melhor. Por agora posso dizer que embora eu nunca tenha sido usuária de drogas, o universo das redes de assistência ao adicto me atraiu após quase três anos de trabalho voluntário, observando a rotina de gestores e trabalhadores aguerridos, a maioria bem-intencionada, porém quase sempre perdida do ponto de vista da gestão.

Durante esse tempo acompanhei e muito observei. Fiz um curso de extensão sobre CTs, e meu olhar começou a ser naturalmente atraído para as notícias do tema. Comecei a me interessar ao invés de ignorar, aprendi a reconhecer conquistas, a entender os dramas, a fazer minhas as alegrias e as tristezas de pessoas que nunca conheci…, até que, por fim, me percebi envolvida e desafiada a ajudar.

Para quem não sabe, comunidades terapêuticas ou casas de recuperação são organizações privadas de interesse público que oferecem tratamento da drogadição em regime de internação voluntária, sendo o tratamento em grande parte das vezes subsidiado pelo governo. Ou seja, os internos não pagam. Muitas casas são abertas por pessoas que venceram a luta contra o uso danoso das drogas, e decidiram dedicar suas vidas a ajudar outras pessoas em situação semelhante.

Ajudar diretamente do ponto de vista da gestão é difícil porque a maturidade dos processos é baixa, tudo é muito pessoal, o dinheiro é pouco, os “incêndios” são frequentes e a paciência com esse palavreado florido do mundo corporativo, em geral, é nula. Profissionais na equipe, então, quase artigo de luxo.

Mas, como se diz, boa prática é boa prática. Na saúde ninguém desafia as boas práticas da medicina… Por que fazemos o mesmo na administração? Nunca entendi isso. Com a psiquiatria, com a psicologia, com a enfermagem não se pode brincar. Mas e a gestão? Se for ruim também ceifa vidas.

A falta de transparência, e de profissionalismo. O oportunismo dos que se aventuram em busca de vantagens pessoais. Essas coisas precisam ser expostas, tratadas e eventualmente denunciadas. Você tem um ente querido que sofreu maus-tratos por pessoas que deveriam tê-lo ajudado? Recebeu um tratamento maravilhoso e está radiante com sua nova vida? Felizmente mais coisas boas do que ruins acontecem com quem se esforça no caminho acerto. O desafio é grande.

Vamos falar sobre isso? Vamos nos aproximar dessas questões pelo olhar das pessoas que nelas atuam, suas atribuições, competências e conquistas, políticos, gestores, psicólogos, monitores. Seremos instigados pelas ocorrências cotidianas, buscaremos referências para apurar responsáveis. As pessoas precisam ser valorizadas nessa luta. Isso é gestão de pessoas.

Até a próxima!

 

RachelHSRACHEL HERINGER SALLES é administradora especializada em gestão pública e gestão de recursos humanos. Atual responsável técnica do Plano Estratégico da Saúde do Distrito Federal, é executiva no grupo Intelit Smart Group. Ama dedicar-se ao terceiro setor de modo geral, em especial sua igreja e tudo relacionado à drogadição.